Questões sobre o Sínodo da Amazônia

 

Ouvem-se vozes dissonantes no Catolicismo. Certo é que “há diversidade de dons e carismas”(1 Coríntios 12,4), mas percebe-se uma negativa e crescente polarização, com incompreensões até mesmo acerca daquilo que é dogmático: a Igreja como Sacramento Universal de Salvação (Lumen Gentium, cap. 1). Contudo, para ser reconhecida como sacramento, cada vez mais a Igreja precisará ser vista no mundo como sinal de “alegria e esperança” (Gaudium et Spes, n 1 ).

Denotam ter pouca informação sobre a vida dos próprios irmãos e irmãs na fé os católicos que pura e simplesmente criticam o Sínodo da Amazônia. Estes são ainda mais deficitários em uma formação autenticamente cristã e caridade pastoral quando amparados pelas informações parciais das redes sociais esquecem que católico é uma Palavra que vem do grego e significa “Universal”.

Recomendável é refletir: “Eu não posso pensar apenas no ‘meu umbigo’. Tenho que ser universal.” Os Católicos integram a Igreja Universal para construir o verdadeiro Reino de Deus. Jesus mesmo disse: “que todos sejam um para que o mundo creia” (João 17, 21-23). Católico veraz e sincero não pode causar divisões, pois se assim o faz iguala-se ao tentador apontado por Jesus Cristo como o separador e pai da mentira (João 8, 44).

Para quem não sabe a verdade é bom falar, e para quem já a sabia, urgente é recordar: já houve vários Sínodos na recente História da Igreja, que trataram, por exemplo, sobre a América (1997); o Oriente Médio (2010); a África (1994 e 2009) e abordaram temas específicos como Família (2014 e 2015) e Juventude (2018). Fica claro que, desde o Concílio Vaticano II, os Sínodos dos Bispos procuraram tratar de questões essenciais para a vida da Igreja Católica, e agora “como comunidade solidária em nível mundial, a Igreja reage responsavelmente perante a situação global de injustiça, pobreza, desigualdade, violência e exclusão na Amazônia” (Instrumentum Laboris n.146).

Há pessoas que se dizem mais católicas do que o Papa, mas estão sendo manipuladas, e em polarizações exacerbadas, falam o que não sabem acerca do Sínodo da Amazônia. Não é honesto deixar-se levar apenas por informações de Redes Sociais ou conversinhas midiáticas promotoras de mordazes críticas ao Documento denominado Instrumentum Laboris (= Instrumento de Trabalho).

Faz-se mister lembrar que este Documento precisa ser bem lido, mas não é uma Constituição Dogmática. É tão somente uma pauta, que em nada mais consiste do que uma publicação com os anseios de seres humanos, uma vez que para fazer o texto denominado “Amazônia: novos caminhos para a Igreja e para uma ecologia integral” efetuou-se um percurso no qual “ouviu-se a voz da Amazônia à luz da fé (Parte I), com a intenção de responder ao clamor do povo e do território amazônico por uma ecologia integral (Parte II) e por novos caminhos para uma Igreja profética na Amazônia (Parte III).

Estas vozes amazônicas exortam a dar uma resposta renovada às diferentes situações e a procurar novos caminhos que possibilitem um Kairós para a Igreja e o mundo (IL n.147). Talvez seja esta a única oportunidade de uma porção do povo de Deus ser ouvida, porque depois as decisões serão tomadas por seus representantes, levando em consideração que “os povos originários possuem uma rica tradição de organização social, na qual a autoridade é rotativa e dotada de um profundo sentido de serviço.

A partir desta experiência de organização, seria oportuno recordar a ideia de que o exercício de jurisdição (poder de governo) deve estar vinculado em todos os âmbitos (sacramental, judicial e administrativo) e de maneira permanente ao Sacramento da Ordem” (IL, n. 127). O Sínodo não quer acabar com a Igreja nem com seus valores e tradições. Discutir certos temas não é decidir dogmaticamente, mas ter sinceridade para tratar os próprios problemas diante da realidade e firmar posições de acordo com a vontade do Senhor que não abandona sua Igreja: “as portas do inferno não poderão derrotá-la” (Mt 16,18-20).

Por isso, sobretudo os militantes de Internet precisam viver bem sua fé e perceber que a Igreja não é uma associação de propagação de doutrina, um mero “clubinho de gente que quer ser honesta” ou uma “sociedade filosófica”. Pensar nestes moldes, contraria a teologia e a eclesiologia do Concílio Vaticano II, fazendo chegar a afirmações absurdas, como a de que o Sínodo da Amazônia seria “a fumaça de Satanás”. Isto é exagero dotado de sectarismo!

Convém não esquecer que “a Igreja tem a missão de evangelizar, o que implica, ao mesmo tempo, comprometer-se para promover o cumprimento dos direitos dos povos indígenas. Com efeito, quando estes povos se reúnem, falam de espiritualidade, assim como do que lhes acontece e de suas problemáticas sociais. A Igreja não pode deixar de se preocupar pela salvação integral da pessoa humana, o que comporta favorecer a cultura dos povos indígenas, falar de suas exigências vitais, acompanhar os movimentos e reunir as forças para lutar por seus direitos” (IL, nº 143).

Entre tantos motes repetidos, vale o que disse o grande Papa São João Paulo II: “a Igreja vive da Eucaristia” (Ecclesia de Eucharistia, nº 1). Muito bem! Pessoalmente eu diria que isso é mais fácil de compreender e viver para mim que rezo missa todo dia ou para quem reside em localidades em que há uma Igreja perto da outra. É fácil criticar o Sínodo sem compreender que na região amazônica, em geral é preciso andar centenas de quilômetros para que se tenha Eucaristia. E, entre tantos outros desafios pastorais, falando diretamente da presença real de Nosso Senhor Jesus Cristo nas espécies consagradas do pão e do vinho, como é que esta Igreja “que vive da Eucaristia” pode ser fortalecida onde existe tanta dificuldade para celebrá-la, como é o caso da região Pan-Amazônica? Para quem vive numa região repleta de padres, templos e capelas é cômodo experimentar certa saciedade espiritual. Salutar seria uma reorganização, proporcionando a criação de uma índole mais missionária já na formação dos presbíteros (Optatam Totius, nº 20).

Uma questão séria a ser respondida também é a seguinte: será que ter recebido tantas vezes a Eucaristia na vida, fez efetivamente alguns cristãos abrirem o coração para imitar o Cristo Servo que lavou os pés de seus discípulos (Jo 13, 1-14) ? O próprio Mestre foi quem ordenou: “Dei-vos o exemplo para que façais vós também como eu fiz” (Jo, 13,15). Fica claro também que o Cristo Servo foi inclusivo (e não exclusivista). Foi Jesus Cristo quem disse: “Tomai Todos e Comei… Tomai Todos e Bebei…” (Mt 26, 26-28). Em muitas capitais brasileiras, por exemplo, chega a “sobrar padre” e é muito fácil cair em um intimismo espiritual. Este é um risco para quem, como eu, vive em uma região em cujo entorno, um raio circular de cinco quilômetros comporta comprovadamente pelo menos 32 altares e sacrários. Isto é real na minha vizinhança entre Paróquias próximas, Casas de Formação, Colégios e Casas Religiosas. Isso contrasta com a Amazônia, e ademais não é difícil habituar-se à sacristia e não pensar nos irmãos que vivem na floresta. E até é possível considerar-se como um santo e imitador de São João Maria Vianney, que de sua casa podia fitar a torre da paróquia vizinha.

Permita o leitor e a leitora, a expressão do testemunho deste pecador curitibano, que num domingo desses sentiu-se como o próprio Cura d’Ars, pois que da sacristia da Igreja dos Passarinhos pode ver a Torre de Santa Teresinha do Batel. E, lembrando de Vianney, pôs-se a pensar: eu e meus irmãos e irmãs católicos não podemos nos prender ao comodismo e meramente aos costumes arraigados. É preciso que para começar, cada padre fosse como João Maria Batista Vianney, que santificou-se como um verdadeiro apóstolo de seu tempo e foi além do que era comum. Com sua vibração e visão pastoral dispensava com unção e mística os santos sacramentos, e sobretudo conseguia com uma linguagem adaptada à sua época fazer com o que o povo se voltasse para Deus.

Na França da época revolucionou a prática pastoral com a passagem “de uma ‘Igreja que visita’ para uma ‘Igreja que permanece’”, acompanha e está presente… (IL 129;1). Também o santo padroeiro dos párocos foi combatido e incompreendido, e sendo considerado ignorante, demonstrou-se maior do que seus críticos, devido ao aporte inovador e à resiliência alicerçada na fé. Não à toa, o grande Bento XVI o nomeou patrono de todos presbíteros do mundo no Ano Sacerdotal de 2009. Devido ao santo Vianney, até o governo francês precisou construir uma ferrovia para conduzir a Ars os que acorriam para ouví-lo. Fala-se que este caminho fizera inclusive um notável médico de Paris, que ao ser questionado em seu retorno pelos que caçoavam de sua ida a Ars, voltou dizendo: “Eu vi Deus em um homem!” (cf. TROCHU, F. O Cura dÁrs. Ed Theologica. Braga. 1987).

Qual é a dificuldade em ver Deus em tantos homens de boa vontade, a começar pelo Papa Francisco, passando pelos bispos amazônicos e os agentes de pastoral tão engajados nesta região do planeta e empenhados em fazer com que a Palavra de Deus seja levada a toda a Criatura (Mc 16,15)? Que benefícios tem uma pessoa que se diz católica mas não pensa de forma “universal” e critica o diálogo e a discussão de problemas candentes e de desafios suscitados com o Sínodo da Amazônia?

Se há tantas Igrejas e oportunidades de evangelização e santificação, que emerja gratidão por tudo isso. E não há razões para um mero apego a certos paradigmas. Já afirmou o Decreto Presbyterorum Ordinis: “Lembrem-se, por isso, os presbíteros que devem tomar a peito a solicitude de todas as Igrejas. Portanto, os daquelas dioceses que tem maior abundância de vocações, mostrem-se de boa vontade preparados para, com licença ou a pedido do próprio Ordinário, exercer o seu ministério em regiões, missões ou obras que lutam com falta de clero” (PO, nº 10). E nesse espírito, com abertura à “conversão pastoral” preconizada pela Conferência de Aparecida, não se esqueçam também os bons cristãos a necessária Nova Evangelização. Isto não é novidade e nem heresia, mas vem na esteira do Concílio Vaticano II, convocado por São João XXIII. Tal realidade foi bem expressada por São Paulo VI na sua Exortação Apostólica Evangelii Nuntiandi! Ao invés de combater o Sínodo, que não é uma inovação, mas algo de sã tradição, que seja superada a ignorância de desmerecimentos pueris com uma leitura atenta e honesta dos documentos da Igreja. Estes afirmam há décadas: “a vida cristã conformar-se-á bem ao gênero de cada cultura, as tradições particulares e qualidades próprias de cada nação, para que esclarecidas pela luz do Evangelho, sejam assumidas na unidade católica” (Decreto AD GENTES, nº 22).

Quem ama a Igreja Católica não pode perder de vista a necessidade de oração, respeito à hierarquia e instrução na fé. E, mesmo que aconteçam perseguições, graças a Deus “a Igreja reconhece que muito aproveitou e pode aproveitar da própria oposição daqueles que a hostilizam e perseguem” (Gaudium et Spes, n 44).

Nada mais do que defender a vida é o que a Igreja propõe com o Sínodo da Amazônia: “As comunidades consultadas salientaram também o vínculo entre a ameaça à vida biológica e à vida espiritual, ou seja, uma ameaça integral. Os impactos provocados pela destruição múltipla da bacia pan-amazônica geram um desequilíbrio do território local e global, nas estações e no clima (…) para cuidar da vida e do “bem viver, é urgente enfrentar tais ameaças, agressões e indiferenças. O cuidado da vida se opõe à cultura do descarte, da mentira, da exploração e da opressão. Ao mesmo tempo, supõe a oposição a uma vida insaciável do crescimento ilimitado, da idolatria do dinheiro, a um mundo desvinculado (de suas raízes, de seu contorno), a uma cultura de morte” (IL, nº 17).

Lamentável é o fato de ocorrer falta de comunhão e até cisões no seio da Igreja. Por isso, convém que cada fiel estude mais sua religião e especialmente os documentos pastorais e indicadores da tarefa do apostolado e evangelização, como é o Instrumentum Laboris para este Sínodo. E, além do Magistério da Igreja, essencial também são as intensas orações pelo Sínodo, rogando a Deus que uma vez sinalizados os desafios, o Espírito Santo inspire caminhos retos para a evangelização em uma “Igreja em Saída”. Que não se ponha em dúvida a ação divina, pois que “o Sínodo da Amazônia é um sinal dos tempos no qual o Espírito Santo abre novos caminhos que discernimos através de um diálogo recíproco entre todo o povo de Deus” (IL, nº 28). Certeza é que Jesus Cristo está presente em diversos ambientes, atrelado à sua “esposa mística”, a Igreja Católica, que inegavelmente conserva o cheiro de sacristia, mas procura o ar puro da floresta.

 

Padre Fabiano Dias Pinto – Reitor do Seminário Teológico Rainha dos Apóstolos e Censor da Arquidiocese de Curitiba

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