#Vidanoseminario: Vocação ou Bocação?

Uma dúvida frequente entre os jovens quando vem ao seminário é sobre a alimentação que há nas casas de formação. Interessante quando paramos para responder as dúvidas que existem nesse sentido, e nem sempre entre os mais novos. Outro dia tive a oportunidade de encontrar a mãe de um seminarista no supermercado e logo que me avistou ela me disse: “Nossa, fazendo compras? Será que meu filho está se alimentando bem? Eu sorri e respondi: Creio que sim ele até deu uma engordada”.

Pois bem, uns imaginam que no seminário é como em alguns filmes em que há um controle absoluto sobre a alimentação, no café apenas pão, no almoço uma refeição completa e na janta sempre sopa. Por outro lado há quem pense que no seminário seja como um hotel, que temos tudo do bom e do melhor o tempo todo e que tudo converge para alimentação.

A maioria dos alimentos que chegam até nós é doação do povo, geralmente o povo mais simples, às vezes com as doações monetárias compramos de acordo com a necessidade. Quando eu era vocacionado lembro-me de que um dos formadores fez a seguinte afirmação: O Padre pode morrer de velhice, de doença, assassinado, mas nunca houve Padre que morresse de fome. Aqui se referindo ao grande valor que o povo dá ao sacerdote, contudo, também a nós no seminário. Isso fica ainda mais evidente quando saímos em missão, a ponto de  tomarmos cuidado para nunca recusar a oferta que o povo nos faz, parece que todo mundo já havia preparado um café.

No dia a dia, cada casa tem sua particularidade desde o Seminário menor até a Teologia. Fato é, que por mais dificuldades que as casas já passaram, asseguro com toda certeza que o essencial nunca faltou. Quando nos sentimos chamados à vocação sacerdotal devemos entender desde o início que a Divina Providência não falha. Portanto, o chamado nos exige arriscar em dizer sim. Do contrário, corremos o risco de pensar apenas nas dificuldades e vai que alguma dessas estejam relacionada à fome transformando a vocação em “bocação”.

Aqui, proponho uma reflexão no sentido espiritual e comunitário de nossas refeições. Não se trata apenas de “encher a pança”; algo que comprova, é que fazemos as refeições sempre de forma comunitária. Entretanto, em alguns lugares muito distantes  daqui há “assaltos em dispensas”. Todavia, há um sentido espiritual quando nos colocamos à mesa. Passamos por vezes despercebidos disso, por ser algo integral em nossa rotina.

Contudo, desde a Igreja primitiva São Paulo já relata: Todos os que tinham abraçado a fé reuniam-se e punham tudo em comum: vendiam suas propriedades e bens, e dividiam entre todos, segundo as necessidades de cada um. Dia após dia, unânimes, mostravam-se assíduos no Templo, e partiam o pão pelas casas, tomando o alimento com alegria e simplicidade de coração. (Atos 2, 44-47).

Essa passagem é atualizada em nossos refeitórios, em cada refeição. De fato não vendemos nossas propriedades, mas quando tomamos o alimento além de sabermos que o povo de Deus participa conosco, é uma oportunidade de conhecermos melhor o próximo, e tão próximo que corre o risco de ser esquecido. Mas, também no refeitório, é momento de discutirmos, por vezes, discordarmos uns dos outros, dar risadas, fazer alguma piada ou até mesmo uma reclamação. Sem dúvida alguma, Deus age em todos os momentos, inclusive como este. Quando colocamos nossas opiniões, nossos gestos e até mesmo os sentimentos, enriquecemo-nos e favorecemos o autoconhecimento com a posição do próximo, e ambos são ajudados a crescer em fraternidade.

Seminarista Thiago Antunes

@https://www.instagram.com/thiagoantunesoliveira/

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  • Arilene Arndt

    Quem abraça a vida religiosa, abraçou a cruz ! (São Paulo da Cruz)